domingo, 23 de mayo de 2010

Memória Social 1 Elizabeth Jelin, Los trabajos de la Memória

Los trabajos de la memoria - Elizabeth Jelin
Madrid: Siglo XXI, Social Science Research Council, 2002.
Grupo: Sandra Arenas, Carlos Beltrão, Lorena Best

Nota prévia:
O trabalho está organizado em três partes. Na primeira, realizamos uma breve introdução da biografia da autora e o contexto da obra resenhada. Na segunda parte, apresentamos um resumo da introdução e dos dois primeiros capítulos do livro, pois neles se encontram o enfoque e a abordagem que a autora propõe. Na terceira parte, elaboramos um diálogo entre o desenvolvimento da metodologia de Jelin, que se encontra nos capítulos 3, 4, 5, 6 e 7, e casos similares de violência política e repressão ocorridos no Brasil, na Colômbia e no Peru.
I
Sobre a autora e a obra
Licenciada em Sociologia na Universidade de Buenos Aires e Doutora em Sociologia (Universidade de Texas). É pesquisadora superior do CONICET, diretora do Programa de Doutorado em Ciências Sociais da UNGS (Universidade Nacional de General Sarmiento) e do IDES (Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social). É membro do diretório do UNRISD (Genebra) e diretora/editora da série de livros “Memorias de la Represión”. Seus temas de pesquisa são os direitos humanos, as memórias da repressão, a cidadania, os movimentos sociais e a família. Dentre seus livros recentes: “Los trabajos de la memoria” y “Pan y afectos: la transformación de las familias”.
Los trabajos de la Memoria faz parte da série Memórias da Repressão, resultado do Painel Regional de América Latina (RAP), da Social Science Research Council, que teve a missão de promover a pesquisa e a formação de pesquisadores sobre as memórias da repressão política do Cone Sul. Esta coleção foi a dirigida por Carlos Iván Degregori (sociólogo peruano) e Elizabeth Jelin. O programa apoiou com bolsas de pesquisa mais de 60 pesquisadores da Argentina, Brasil, Chile, Peru, Paraguai, Uruguai e Estados Unidos. O programa apresenta 3 questões principais:
• A necessidade de gerar avanços teóricos na pesquisa do tema, seu rol na constituição das identidades na região e suas consequências nas lutas pela memória sobre as práticas sociais e as políticas nas sociedades em transição.
• Promover o desenvolvimento de uma sólida geração de pesquisadores nestes temas.
• Criação de uma rede de intelectuais públicos da região preocupados pelos temas da memória.

“Hay contradicciones, tensiones, silencios, conflictos, huecos,
disyunciones, así como lugares de encuentro y aun
‘integración’. La realidad social es compleja, contradictoria,
llena de tensiones y conflictos. La memoria no es una excepción.” (p. 37)
II
Introdução e enfoque: capítulos 1 e 2
Já o título do livro deixa entrever a posição da autora: a memória trabalha. Isso significa também que a memória é ativa, cria, tem responsabilidades e constrói, em suma, a memória é um processo que visa à transformação. A obra tem um caráter dialógico, apresenta questões, lança algumas luzes sobre elas e ao mesmo tempo é consciente dos vazios em determinadas abordagens. O objetivo do livro é encontrar sentido aos acontecimentos e sofrimentos que impulsionam aos movimentos do “nunca mais” em defesa da dignidade humana e dos direitos humanos. Em resumo, é a perspectiva de uma intelectual comprometida, engajada com a procura da dignidade e da justiça social.
O foco da obra são as memórias da repressão; nesse sentido trata-se de memórias da crise, da ruptura do inominável, do sofrimento e da supressão da dignidade humana. Uma memória ativa que se identifica com a justiça (Yerushalmi). Assim, a análise metodológica propõe ferramentas para uma interpretação e contextualização dos esquecimentos, silêncios e “buracos” da memória da repressão; no meio dos movimentos de Direitos Humanos, das organizações da sociedade civil pelo “nunca mais”, dos processos judiciários contra os repressores das ditaduras e das transformações legais, judiciárias e executivas dos Estados em transições para a democracia. Enfim, no contexto social de um passado que não quer passar, pois a memória insiste na sua presença.
Assim, as ferramentas que o livro propõe para analisar os sentidos e presenças do passado atravessam os âmbitos político e cultural, simbólico, pessoal, histórico e social, a partir de (p. 2):
• Pensar as memórias como processos subjetivos ancorados em experiências e marcas simbólicas e materiais.
• Pensar as memórias como objetos de disputas, conflitos e lutas (atenção ao rol ativo do produtor dos sentidos dessas lutas nas relações de poder).
• Historizar as memórias: reconhecer que existem mudanças históricas nos sentidos do passado.
O texto se ancora nos vestígios das ditaduras das décadas de 60 a 80 e nos processos pela restituição dos direitos na década de 90, no contexto dos processos de democratização atual nos países do Cone Sul. A pesquisa se centra no caso da ditadura Argentina, fazendo paralelos com os casos do Uruguai, do Chile e, em menos medida, com do Brasil. Trata o caso do Holocausto como momento paradigmático para o estudo das memórias da violência e da repressão política, fazendo um percurso pela Guerra Civil Espanhola.
Assim, pensar no contexto atual significa pensar nos regimes democráticos atuais, que propõem políticas neoliberais com um forte apego ao mercado, uma forte violência policial (com traços de penalização da pobreza e da etnicidade), direitos civis ameaçados e discriminação das minorias. Neste contexto, cabe pensar nas continuidades e rupturas entre as ditaduras e os frágeis regimes constitucionais da atualidade? (p. 4) Assim, o passado ditatorial recente faz parte central da experiência do presente. Aqui se ancoram os conflitos para processar o passado: desde as instituições até a sociedade civil. O fato básico é que é impossível encontrar uma memória, uma visão e uma interpretação única do passado. A luta política se dá sobre o sentido do passado e muitas vezes essa luta se coloca contra o esquecimento: “lembrar para não repetir”. No livro, Jelin apresentará o esquecimento, o silêncio, os buracos da memória como parte de este tenso processo de lutas políticas e sociais. (p. 6)

Capítulo 1 - A memória no mundo contemporâneo
Para falar da memória no mundo contemporâneo, a autora, retomando as questões propostas por Huyssen, chama a atenção para a explosão da memória no mundo ocidental, afirma que a cultura da memória se apresenta como resposta à mudança rápida e uma vida sem ataduras ou raízes. A memória enquanto mecanismo cultural que permite fortalecer os sentidos de pertencimento, em especial entre grupos oprimidos, silenciados ou discriminados.
Jelin chama a atenção sobre aqueles olhares conservadores e nostálgicos da memória, como o de Nora; tanto como aqueles que se lamentam pelos passados que não passam, pelas fiações e as persistências de passados dolorosos que não permitem o esquecimento, representados em autores como Todorov.
Mas que uma moda, para a autora, a memória e o esquecimento, a comemoração e a lembrança se tornam importantes quando estão vinculadas a acontecimentos traumáticos e situações de repressão. Na mesma linha de Huyssen, a autora afirma que se num sentido político, a demanda pela memória se expressa em termos de reconhecimento, responsabilidade, justiça e ética, demandam olhares que não resultam fáceis de resolver pela conflitividade política entre os coletivos e a ruptura dos laços sociais. Nestes casos, a demanda pela memória coincide com a demanda pelo respeito aos direitos humanos e o estabelecimento de ordens democráticas.
Outro assunto importante é o do tempo, retomando a Koselleck, a autora afirma que situar temporalmente a memória significa fazer referencia ao espaço da experiência no presente, ou seja, o passado presente. Muitas vezes ao longo do livro, a autora afirmará que o tempo das memórias não é linear, cronológico ou racional.
Seu livro se chama os trabalhos da memória porque ela afirma que é necessário elaborar memórias e lembranças no lugar de revivê-las. Este trabalho pode se dar em dois planos, o individual, analisado pela psicologia, no qual, citando Laplanche y Pontalis, o trabalho de “duelo implica un proceso intrasíquico, consecutivo a la pérdida de un objeto de fijación, y por médio del cual el sujeto logra desprenderse progresivamente de dicho objeto” (p. 15). Freud também afirma que esse trabalho toma tempo para esquecer e transformar os afetos e sentimentos; Ricoeur, por sua parte, afirma este tempo de duelo é libertador.
Quanto ao plano coletivo e retomando as questões de LaCapra e Todorov, Jelin afirma que o grande desafio é superar os esquecimentos e abusos políticos, tomar distância, retomar os debates e a reflexão sobre o passado, mais procurando olhar para o futuro “Esto implica um pasaje trabajoso para la subjetividad: la toma de distancia del pasado, aprender a recordar. Al mismo tiempo implica repensar la relación entre memória y política, y entre memória y justicia.” (p. 16) O livro trabalha nos dois planos, o individual, no capítulo que trata sobre o trauma, testemunho e verdade; e o plano coletivo, nos capítulos sobre as lutas políticas pela memória, o gênero nas memórias e as transmissões, heranças e aprendizagens.
Para definir do que se fala quando se fala em memória, primeiramente a autora esclarece que não se trata de memória, mas sim de memórias no plural. A continuação fala de três eixos analíticos, em primeiro lugar o sujeito que lembra e esquece. É sempre um indivíduo ou se pode falar de coletivos? Em segundo lugar, se refere aos conteúdos, o que se lembra e o que se esquece? Vivências, saberes, crenças, patrões de comportamento, sentimentos, emoções. Por último, como e quando se lembra e se esquece, o passado é ativado no presente em função de expectativas futuras, em termos das dinâmicas sociais. Este como e quando se lembrar pode ter um caráter individual ou coletivo e pode ter momentos de ativação da memória e outros de silêncio. Há também chaves de ativação da memória, como rituais, performances, onde o simbólico e o mítico ocupam um lugar privilegiado.
Em relação ao primeiro eixo da análise, a psicanálise tem se preocupado pelo outro lado da questão, o esquecimento, os buracos, os traumas, não obstante num nível mais individual que coletivo. Por outra parte, a memória pode ser pensada em termos coletivos, para tal efeito a autora retoma as teses de Halbwachs e fala que, ainda que sua proposta seja discutível, para seu estudo é interessante a noção de marco ou quadro social, no sentido de marcos ou quadros nos quais a memória é compartilhada, como a religião, a família e a classe. É interessante para ela porque desta perspectiva é possível analisar as memórias coletivas, não só como dados, mais também centrar a tensão na construção, os atores implicados nela, as lutas e as negociações pelos sentidos destes processos.
Dentro deste primeiro eixo de análise, o sujeito que lembra e esquece, é importante o assunto da identidade. A identidade como uma coisa que nos permite pensar, são parâmetros, traços de identificação individual ou coletiva, essas identidades podem estar fundadas em fatos concretos ou ser projeções, idealizações. O importante é que períodos de crise ou de ameaça, geralmente implicam em reinterpretar a memória e questionar identidades.
Em relação ao segundo eixo, relativo aos conteúdos das memórias e dos esquecimentos, as lembranças se expressam de forma narrativa, é a “manera en que el sujeto construye un sentido del pasado”. Segundo Jelin, esta construção tem duas características, de um lado, o passado cobra um sentido num enlace com o presente no fato de rememorar e esquecer; num outro, esta pergunta pelo passado é um processo subjetivo, é ativo e construído socialmente pelo diálogo e interação.
Nesta discussão da memória, o esquecimento ocupa um lugar central, é necessário para a sobrevivência do indivíduo e do grupo. Esses esquecimentos têm usos e sentidos:
1. Esquecimento definitivo que pode ser um esquecimento exitoso na medida em que tem um êxito temporal, mas se existe uma vontade de memória, pode voltar. Por outro lado, também tem aqueles esquecimentos que são produtos de uma vontade política de esquecer; neste sentido é preciso ter presente, de acordo com a autora, que toda política de memória implica uma seleção, do que se preserva e do que se esquece.
2. Como superar as dificuldades e aceder aos rastros das memórias.
3. Esquecimento evasivo, denominado assim por Ricoeur, o silêncio contrapondo ao esquecimento. Neste caso, o importante será encontrar quem queira escutar.
4. Esquecimento libertador. Pode ser analisado em duas perspectivas: Nietzsche e seu pedido por um esquecimento que permita viver, e Todorov, e seu uso exemplar da memória.
Nesta discussão sobre a memória como construção social narrativa, Jelin retoma Halbwasch quando afirma que “Es el lenguaje y las convenciones sociales asociadas a él lo que nos permite reconstruir el pasado.” (p. 34) Assim, a narração da memória tem um caráter social. Para Bourdieu, nesse discurso se expressa também um poder simbólico e uma luta para revestir de legitimidade e reconhecimento essas narrações. Que importa de tudo isto?
1. Ter ou não ter palavras para expressar o vivido. Se não se encontram os canais para expressar o evento traumático, a memória fica desarticulada.
2. Se toda a experiência está mediada e não é pura, se faz necessário repensar a suposta distância e diferenças entre os processos de lembrança e do esquecimento autobiográficos, e os processos sócio-culturais compartilhados pela mediação de mecanismos de transmissão simbólica.
3. Permitir a articulação de níveis individual e coletivo ou social da memória, a experiência é vivida subjetivamente e culturalmente compartilhada. Neste ponto, são importantes os sujeitos da memória e os veículos da memória.
Nessas perguntas de quem, como e quando, Jelin aborda o que é uma das mais interessantes questões: as lutas políticas pela memória. A autora começa este capítulo com uma questão feita por Ricoeur: “El pasado ya pasó, es algo determinado, no puede ser cambiado. El futuro por el contrario es abierto, incierto, indeterminado. Lo que puede cambiar es el sentido de ese pasado, sujeto a reinterpretaciones ancladas em la intencionalidad y en las expectativas hacia ese futuro. Ese sentido del pasado es um sentido activo dado por agentes sociales que se ubican en escenario de confrontación y lucha frente a otras interpretaciones, otros sentidos, o contra olvidos y silencios” (p. 39) A proposta da autora é estudar os processos e os atores que intervêm no trabalho de construção e formalização das memórias.
Na construção do Estado-nação latino-americano, se configurou um relato, uma história oficial na qual se estabeleceu claramente as posições dos atores e os conteúdos dos relatos. No entanto, nos momentos de democratização ou transição política esses relatos oficiais foram confrontados por outros relatos, por outras memórias que reclamaram reconhecimento e legitimidade. Não obstante, não se pode falar de uma contraposição binária, dentro de uma mesma sociedade podem se dar múltiplas leituras do passado. Isso quer dizer que desde o início dos acontecimentos estão se formando relatos e discursos que num momento dado podem entrar em disputa para se legitimar, dependendo da conjuntura política. “La cuestion de como encarar las cuentas con el pasado reciente se convirtió entonces en eje de disputas entre estrategias políticas diversas”. É bom trazer de novo Huyssen quando ele chama a atenção sobre os possíveis usos políticos da memória.
Há dois conceitos chaves utilizados por Elizabeth Jelin: veículos da memória e os agentes da memória ou empreendedores da memória.
Os veículos são todos aqueles lugares, objetos, datas, rituais que trazem a lembrança, que ativam a memória. Por sua parte, os agentes o empreendedores são sujeitos que:
“(…) se involucran personalmente en su proyecto, pero también comprometen a otros, generando participación y una tarea organizada de carácter colectivo. A diferencia de la noción de militantes de la memoria (utilizada por ejemplo por Rousso), el emprendedor es un generador de proyectos, de nuevas ideas y expresiones, de creatividad - más que de repeticiones- la noción remite también a la existencia de una organización social ligada al proyecto de memoria, que puede implicar jerarquías sociales, mecanismos de control y división de trabajo bajo el mando de los emprendedores”. (p. 18)
Agora, como estudar esses artefatos da memória e seus agentes? Segundo a proposta metodológica de Jelin, é preciso, em primeiro lugar, identificar e analisar a dinâmica social das datas e dos aniversários, daqueles momentos em que a esfera pública é ocupada pela comemoração. Em segundo lugar, identificar os objetos materiais e os lugares ligados aos fatos, monumentos, placas, praças, arquivos e outras marcas da memória, pois eles são as maneiras nas quais a memória se materializa.
A proposta de Jelin dos empreendedores da memória implica uma elaboração da memória em relação a projetos ou empreendimentos que possam significar a criação de uma memória exemplar, tal como a propõe Todorov. Aquilo subjacente à proposta é o problema central da relação entre memória e política, se refere à possibilidade de conformar uma comunidade política com regras.
Todos esses processos de memória têm implícita uma luta política entre os empreendedores da memória e seus diferentes relatos, tanto pelo conteúdo, como pelas marcas e os meios de lembrar. A memória se torna em parte do jogo de poder. Fazem-se duas perguntas: Quem é a autoridade que vai decidir quais são as formas apropriadas de lembrar? Quem encarna a verdadeira memória?


Capitulo 2 - De que falamos, quando falamos de memórias?
Jelin apresenta no princípio duas possibilidades para trabalhar a categoria memória: como ferramenta teórico-metodológica e como categoria social à que se referem ou omitem os atores sociais, seu uso (abuso ou ausências) social e político e as concepções e crenças do senso comum. Neste capítulo a autora tentará um avanço nas questões conceituais, lembrando que uma abordagem da memória significa se referir às lembranças, esquecimentos, narrativas e atos, silêncios e gestos; aos buracos e as fraturas, aos saberes e as emoções.
Voltando à Halbwachs, segundo a qual as memórias individuais sempre estão marcadas socialmente (visão do mundo, valores, necessidades sociais, etc.) e o esquecimento significa a perda destes quadros sociais, assim nunca lembramos a sós, lembramos com os outros, estamos submersos nas narrativas coletivas. “Como esos marcos son históricos y cambiantes, en realidad, toda memoria es una reconstrucción más que un recuerdo.” (p. 21). Jelin coloca a ênfase nos quadros sociais da memória mais do que na memória coletiva (conceitos de Halbwachs), pois o perigo é que a memória coletiva possa ser entendida como uma entidade própria que logo será cristalizada separada dos indivíduos. O coletivo nas memórias é o tecido de tradições e memórias individuais em dialogo e fluxo constante, que tem organização e estrutura socialmente compartilhadas. Assim Jelin afirma que “Las vivencias individuales no se transforman en experiencias con sentido sin la presencia de discursos culturales, y éstos son siempre colectivos. A su vez, la experiencia y la memoria individuales no existen en sí, sino que se manifiestan y se tornan colectivas en el acto de compartir. O sea, la experiencia individual construye comunidad en el acto narrativo compartido, en el narrar y el escuchar.” (p.37)
Este olhar nos permite passar da memória como dado para centralizá-la nos processos de construção (Pollak) e dar voz aos distintos atores sociais e as disputas de sentidos do passado em cenários diversos (isto permite a pesquisa nas memórias dominantes).
Neste ponto Jelin chama a atenção para a noção do tempo dentro dos quadros sociais da memória, onde as próprias noções de tempo e espaço são também construções sociais. Aqui entram noções como a do passado real, o tempo mítico, os rituais e as repetições dos eventos fundacionais. A repetição do tempo mítico não é a histórica, o que acontece é que acontecimentos novos se inserem nas estruturas de sentido pré-existentes.
A relação entre memória e identidade parece ser um fato indiscutível, porém convém colocar algumas reflexões: o núcleo de qualquer identidade grupal ou individual está ligado a um sentido de permanência ao longo do tempo e do espaço. Lembrar o passado mantém a identidade. Por exemplo, os períodos de crise reinterpretam a memória e questionam a própria identidade.
Como dito anteriormente, nossa vida cotidiana está preenchida de hábitos claramente marcados socialmente (Halbwachs), porém, estes hábitos podem se romper. Neste momento os afetos e os sentimentos aparecem para refletir e procurar um sentido ao acontecido. É neste momento que um fato se faz memorável (Bal). Assim o acontecimento memorável será expressado de forma narrativa: “convirtiéndose en una manera en que el sujeto construye un sentido del pasado.” Nestes relatos comunicáveis da memória identificamos duas caraterísticas:
• O passado cobra um sentido no seu vínculo com o presente, no ato de lembrar-esquecer.
• A interrogação do passado é um processo subjetivo, é ativo e construído socialmente por meio do diálogo e a interação.
Finalmente: “Toda política de conservación y de memoria, al seleccionar huellas para preservar, conservar o conmemorar, tiene implícita una voluntad de olvido. Esto incluye, por supuesto, a los propios historiadores e investigadores que eligen qué contar, qué representar o qué escribir en un relato.” (p. 30)

Abordagens importantes no livro Los Trabajos de la Memória:
• Existem três maneiras de pensar a relação história-memória: a memória como recurso para a pesquisa, o papel da pesquisa histórica no sentido de corrigir memórias e a memória com objeto de pesquisa. Estas três maneiras não se excluem, podem se sobrepor.
• A história é uma construção político-ideológica, plausível de estar a serviço de diversos poderes, e são estas diversas orientações ideológicas que vão guiar a relação entre a história e a memória, tomando em conta suas lembranças, esquecimentos, silêncios, ambiguidades e buracos. O ingresso da subjetividade da memória na construção da história significa uma postura político-ideológica.
• Segundo La Capra “la posición que defiendo propone una concepción de la historia que involucra una tensión entre la reconstrucción objetiva (no objetivista) des pasado y un intercambio dialógico con él y con otros investigadores, en el que el conocimiento no entraña solamente el procesamiento de información sino también afectos, empatía y cuestiones de valor.” (p. 67)
• O tempo das memórias não é linear, cronológico ou racional. Assim os processos históricos ligados às memórias de passados conflitivos tem momentos de maior visibilidade e outros em que aparece o esquecimento e o silêncio. O dinamismo das memórias e o ingresso de novos atores das mesmas ressignifica estas memórias e seus processos históricos.
• Existe uma relação permanente entre memória e história, assim como a memória é uma fonte decisiva para a história; a história deve questionar e provar criticamente os conteúdos das memórias.
• A narração das memórias: os testemunhos. Só existe testemunho enquanto existe um outro disposto, interessado a ouvir aquilo que está sendo narrado. “Cuando se abre el camino al diálogo, quien habla y quien escucha comienzan a nombrar, a dar sentido, a construir memorias. Pero se necesitan ambos, interacturando en un escenario compartido.” (p. 84) Segundo Pollak, “(…) los modos en que un testimonio es solicitado y producido no son ajenos al resultado que se obtiene.” Testemunho pode ser um depoimento judiciário ou policial, uma entrevista de historia oral, um exercício autobiográfico. Todas estas diferentes modalidades de expressão vão significar as diferentes formas de “tomar la palabra”.
• O testemunho é um momento de reelaboração, de afirmação e de reconhecimento da própria subjetividade, de manifestação da necessidade de voltar a se subjetivizar. Podemos dizer que o testemunho é uma tentativa de recomposição simbólica pessoal e sempre está dirigido a um outro. É um ato colaborativo. Segundo Vich e Zavala “el testimonio nos permite acceder al conflicto entre un decir posible y un imposible decir.” (p.109) “El testimonio es una especie de ‘épica de la cotidianidad’ y, como tal, su sistema narrativo no permite abstracciones. Por tanto, su política consiste en mostrar cómo lo privado se vuelve público y como - en tanto privado - se convierte en un imprescindible lugar para observar el asentamiento del poder.” (p. 111)
• Testemunha é aquele que vivenciou o acontecimento, assim como também testemunha é o sobrevivente e testemunha é o observador. O testemunho também é trasnmitido, assim surgem novas gerações que dão testemunho daquilo que não vivenciaram, com o intuito de que se reestabeleça a justiça e não volte a repressão política. Pergunta: o que acontece com os testemunhos dos “sem voz”, pensando nos povos indígenas, naqueles que falam outra língua - distinta a língua do repressor ou a língua dominante. O que acontece com testemunhos daqueles que nunca são chamados a dar a sua palavra, como as crianças? Quem, como, para que se interpretam os testemunhos, quais narrativas se fazem públicas, quais não? O Que acontece quando há uma exposição excessiva da palavra?
• Jelin dedica um capítulo ao tema do género das memórias. Ela chama a atenção para os mecanismos diversos da repressão atuando sobre as mulheres e os homens, e também para os trabalhos diferentes das memórias das mulheres e dos homens. Assim, (…) los símbolos de dolor y sufrimiento personalizados tienden a corporizarse en mujeres, mientras que los mecanismos institucionales parecen ‘pertenecer’ a los hombres.” (p. 99)
• É importante observar que a maioria de movimentos pelos direitos humanos, de procura dos “desaparecidos”, são movimentos liderados por mulheres, elas são as primeiras em denuncias a violência: mães, filhas, irmãs, avós, esposas dos desaparecidos. Embora a maioria de mortos e desaparecidos sejam homens, a repressão exerce mecanismos particulares de violência sobre as mulheres. Violentando seus corpos (torturas sexuais, estrupos, servitude sexual), violentando seu lugar na familia e na sociedade (partos feito em sequestro, sequestro dos seus filhos, desarticulação da familia e das comunidades, sequestro e morte das liderenças comunitarias, etc.), degeneração do feminino (os atributos femininos passam a ser usados para humilhar os pressos).
• As mulheres são as sobreviventes e se convertem em chefes de familias e em lideranças comunitárias, se tornando o novo alvo da repressão. Elas procuram reconstituir os laços familiares e sociais, daí se nota que a maioria dos movimentos pela “verdade” dos desaparecidos seja de cunho familiar (Madres de Plaza de Mayo). O tema de gênero, violência e memória é um vasto campo que precisa ser estudado nas suas particularidades: mulheres estudantes e inteletuais engajadas nos movimentos de guerrilha (como o caso da Argentina, Brasil, Chile e Uruguai), os sequestros de mulheres grávidas que pariram em cativeiro e foram desaparecidas (dentro do Plano Cóndor, Argentina, Uruguai), a matança de líderes populares (caso do Peru), os estrupos, torturas e servitudes sexuais de mulheres indígenas, camponesas ou pobres, assim como o auto-exílio (Peru, Guatemala, Colômbia). Diversas abordagens se tecem para o trabalho destas memórias, como o gênero e a etnicidade.

III
Diálogo entre o artigo Os desafios da preservação da memória da ditadura no Brasil, de Joana D’Arc Fernandes Ferraz e Los Trabajos de la Memoria, de Eliabeth Jelin
De acordo com Jelin e Ferraz, o passado não tem um sentido fixo, mas um sentido ativo, dado por agentes sociais em disputas de interpretações. Ressaltamos que a memória é seletiva e política, sendo re-significada pelas demandas do presente. Nessa disputa de sentidos da memória, há uma memória oficial, onde os agentes estatais têm um papel e peso central. A história/memória oficial, segundo Pollak, serve para reforçar o sentimento de pertencimento, manter a coesão social e defender fronteiras simbólicas.
Jelin trabalha a idéia que nos locais onde se vivenciaram processos repressivos e, consequentemente, traumáticos, as memórias são dinâmicas, mudando ao longo do tempo dentro de uma lógica de manifestação e elaboração do trauma, das estratégias políticas de diversos atores, pelas questões levantadas pelas novas gerações e pelo “clima da época”. Como colocado anteriormente, o tempo das memórias não é linear, cronológico ou racional. A memória de um passado conflitivo tem momentos de maior visibilidade e momentos de latência, de aparente esquecimento ou silêncio. Quando novos atores ou novas circunstâncias se apresentam no cenário, o passado é re-significado e cobra um espaço público.
Ferraz propõe que a memória nacional oficial da ditadura ou memória do consenso, construída pela elite política, colocou a ditadura como “revolução democrática”, se calando quanto às arbitrariedades cometidas no passado, que é comprometedor, e consequentemente ignorou as questões de reparação moral e jurídica (o que pode ser visto em filmes, seriados, relatos, etc., onde não são revelados os nomes dos torturadores e mostradas as continuidades da luta, como a busca por restos mortais e a luta pela abertura dos arquivos). Essa memória oficial, ou do consenso, que busca hoje a paz e harmonia, não é democrática ou justa, pois não cumpre com o que é, para Jelin, a função da memória, que é mostrar um passado sem mentiras ou lacunas.
Pollak define como “memória fria” o patrimônio que valoriza a presença opressora do Estado e negligencia as lutas políticas e relações sociais. Essa memória perpetua o trauma das vítimas passadas e futuras. Segundo Ferraz, enquanto o passado não é resolvido, o trauma permanece e a sociedade continua autoritária.
A partir da redemocratização, ao serem ouvidas as vozes censuradas ou proibidas, vindas principalmente do movimento de direitos humanos (onde Jelin destaca o protagonismo das mulheres) que reivindicam reparação jurídica e moral, essa memória do consenso começou a ser abalada. A sociedade de hoje está mais aberta para falar e ouvir, existindo uma necessidade de releitura da memória nacional e de apelo para o fim do esquecimento (o que pode ser notado em filmes, teses, etc.), o que favorece a inserção na esfera pública redes de memória até então particulares e clandestinas, definido por Pollak como de “estruturas de comunicação informais”, que são essas novas memórias, não memórias frias, mas de luta, resistência, repressão e de sonhos, como a história dos militantes, as lutas revolucionárias e as torturas, que contrapõem os silêncios e os esquecimentos produzidos pelos atores sociais que imprimiram a memória oficial, e também por omissão da sociedade, que participou do golpe civil-militar.
As memórias clandestinas, segundo Pollak, quando saem do seu pequeno círculo e são compartilhadas, invadindo o espaço público, passam a ter uma função de contestação e reivindicação. Ferraz argumenta que essa memória da luta, promovida por movimentos de resistência (como o GTMN e Amigos de 68), é pedagógica, pois busca olhar para os crimes do passado para construir uma sociedade mais justa. Essa luta por justiça e memória é necessária para a superação do trauma. Esses atores sociais ou grupos de pressão “argumentam que não é possível seguir rumo à democracia sem corrigir os erros do passado”.
Jelin coloca esses agentes sociais que lutam pela memória, como empreendedores da memória - principalmente as vítimas ou afetados diretos, que tentam modificar o sentido e o conteúdo da história oficial ou dominante. Entre suas estratégias: reivindicações e reparações materiais, busca de comunidades de pertencimento, realização de rituais, comemorações, monumentos e museus. Em função dessas lutas, Ferraz destaca conquistas, como a localização de restos mortais e indenização para sobreviventes e familiares de mortos.
Para Ferraz, os principais eixos de luta se referem (considerando-se Brasil, Argentina, Chile e Uruguai): 1) à abertura dos arquivos secretos da ditadura (nenhum país fez); 2) reparação moral, que inclui o julgamento dos torturares - o que toca na questão da lei da anistia (onde só o Brasil não fez); 3) reparação jurídica; 4) apoio psicológico; 5) apoio à reconstrução à vida profissional (nenhum país fez).
Para Jelin, os lugares onde ocorreram as prisões e tortura são um ponto crucial nessa disputa por significações, onde grupos sociais que atuam como empreendedores da memória conseguiram modificar algumas de suas significações, fazendo surgir novas interpretações, mudanças nas narrativas e também novos conflitos. As vítimas de São Paulo conseguiram criar o Museu da Resistência, no antigo Deops/SP e em outros estados percebemos movimentos reivindicatórios para a musealização desses espaços, como no Rio de Janeiro (Dops) e Minas Gerais (Memorial da Anistia Política), o que demonstra como essas disputas pelas significações dos locais da tortura e repressão estão em evidência.
Para Todorov existem dois tipos de memória: a que faz “mau” uso do passado - a “literal”, e a que faz “bom” uso do passado - a exemplar. Enquanto que a memória literal se fecha em si mesma, onde existem um “dever de memória” através dos “militantes da memória”, a memória “exemplar”, é feita pelo empreendedor da memória, implica em, por um lado, superar a dor da recordação pessoal, por outro, aprender com ele, tirar do passado as lições para o presente.
Jelin procura mostrar de como ser possível a construção de uma memória exemplar, a partir das narrativas dos testemunhos que vivenciaram o trauma. O testemunho tem “um propósito político e educativo, que é transmitir experiências coletivas de luta política, assim como os horrores da repressão, tentando indicar caminhos desejáveis e marcar com força o ‘nunca mais’”. “O testemunho como construção de memórias implica multiplicidade de vozes, circulação de múltiplas ‘verdades’, também de silêncios, coisas não ditas”, esses silêncios podem vir de vazios traumáticos ou de estratégias de distanciamento do outro, respondendo somente o que outro está preparado para escutar, ou por não desejar se expor, por vergonha ou por busca da dignidade. Pollak coloca como um modo de gestão da identidade. Para Ferraz, a instituição da repressão, que inibiu falas, foi o fator preponderante na constituição desse silêncio traumático.
O sofrimento traumático pode privar a vítima de sua comunicação, impedindo o testemunho, já que, para Jelin, o traumático do acontecimento implica uma “incapacidade semiótica”. Sob o ângulo da discursividade, é preciso levar em conta a disponibilidade de marcos narrativos (ou sistemas simbólicos) existentes em uma cultura.
A partir dessa dificuldade de se expressar, Jelin destaca a importância não só do narrador, mas do outro, que escuta ativamente. Só através do diálogo é possível a superação de um trauma histórico. A ausência do outro - que pode escutar suas angústias, afirmar e reconhecer sua realidade - aniquila o relato. É importante ressaltar que esse diálogo deve ser construído sob a alteridade, ao invés da identificação. A capacidade de escuta diferenciada e atenta dos outros é uma ferramenta fundamental para uma narrativa pública que recupere a intimidade e a privacidade.
Resumindo, Ferraz mostra a importância das ações individuais para a preservação da memória da ditadura. Não é a partir da ação governamental (que até hoje não abriu os arquivos ou criou um monumento em memória das vítimas) e sim dos movimentos de resistência, definidos grupos de pressão ou empreendedores da memória, que essas memórias de luta são colocadas na esfera pública, levantando assim importantes discussões que funcionam como marcos de pressão sobre o Poder Judiciário. Essa luta ou negociação é dada entre diversos atores e grupos sociais e se move pelo reconhecimento dessas memórias de luta, com objetivo de superar o trauma, buscando a afirmação da justiça e da memória, o que implica a reparação moral e jurídica.



Os estudos da memória na Colômbia
Dentro do processo de paz com os grupos paramilitares na Colômbia se criou a “Comisión Nacional de Reparación y Reconciliación” e como parte dela o Grupo de Memória Histórica. A primeira questão sobre o quero chamar a atenção é o nome do grupo Memoria Histórica. Desde sua criação tem claro que, em primeiro lugar a memória tem um caráter político, por ser um campo de luta onde se dirimem as versões do passado em relação com o futuro que se quer construir, mas essas memórias acedem ao campo político em condições de desigualdade. Em segundo lugar, a memória histórica tem um papel fundamental nos processos de democratização em situações de conflito. Terceiro, a memória histórica não é um substituto da justiça, mais é uma forma de justiça. Quarto, que memória histórica é uma forma de reparação, um mecanismo de reconhecimento, deixam de ser vítimas para serem vítimas organizadas, vítimas cidadãs, criadores de memórias cidadãs. Como se pode deduzir, é uma memória histórica porque tenta reconstruir não só as narrativas da memória, superar os traumas ou reconhecer as vítimas, mas também tem um compromisso com a reconstrução dos fatos, com a verdade do acontecido, ainda com consequências judiciais. Como afirma seu diretor Gonzálo Sánchez: “Muchas cosas están pasando en Colombia hoy. Y una de las más importantes es que pese a las estructuras del miedo, las víctimas, la sociedad y las instituciones han comenzado a hablar. Es el tiempo de hacer memoria” (CNRR, Comisión de Memoria Histórica, 2008, p. 27).
Até agora esse Grupo tem feito duas grandes pesquisas de dois casos emblemáticos de violência na Colômbia: o massacre em Trujillo, Departamento do Valle e El Salado no departamento de Bolivar

Trujillo Valle
O município de Trujillo no Departamento do Valle, no sul ocidente colombiano tem sido lugar de uma violência múltipla e continuada entre 1988 e 1994, com um total de 342 vítimas assassinadas, desaparecimentos e deslocamentos. Numa conjunção de atores como exército, polícia, narcotraficantes, políticos locais que cometeram toda classe de ações violentas contra os habitantes de Trujillo.
Este caso ilustra uma longa e frustrante espera pela verdade, a justiça e a reparação. Não obstante, é também reflexo da incansável luta dos guardiões da memória, através de denúncias, organização dos habitantes no “Movimento de Víctimas de Crimens de Estado”. Para o grupo de Memória Histórica, esses empreendedores da memória de que fala Jelin não só promove a criação das narrativas, eles têm a tarefa de identificar, dignificar e humanizar as vítimas, deixar de ser uma comunidade de duelo para ser uma comunidade de direitos. Para eles é muito importante a condição de cidadão que deve resgatar a vitima, como sujeito de direitos: direito a justiça, direito a dignidade, direito a reparação. Este é talvez um componente político que Jelin não explora.


El Salado
O massacre do Salado, feita entre os dias 16 e 19 de fevereiro o 2000, é outro caso emblemático, mas diferente. O acontecimento é significativo na história e dinâmica do conflito armado colombiano por sua magnitude, crueldade extrema, teatralização do horror e duração dos fatos: 60 mortes em três dias. No entanto, não gerou uma condenação generalizada aos vitimários, nem solidariedade com as vítimas, nem sequer um registro duradouro do acontecimento na memória coletiva. A pergunta central da pesquisa é qual é a responsabilidade das autoridades nos fatos, qual é nosso papel como sociedade quando acontecem horrores como esse narrado, porque uma sociedade deu mais valor à narração feita pelos vitimários do que aquela feita pelas vítimas, porque a estigmatização dos habitantes do Salado e certa justificação social dos fatos: eram guerrilheiros. A investigação revela como os vitimários tiveram a possibilidade de dar sua versão dos fatos, e como as mídias de comunicação e as mesmas autoridades não deram oportunidade de falar as vítimas, minimizando o acontecido. Neste caso as vítimas não têm organização, não têm uma reclamação pelos direitos, são invisíveis para a sociedade. Por isso o compromisso do grupo em reconstruir uma verdade histórica, é dizer, a pesquisa tem que ter um sustento metodológico e de validez documental que permita narrar os acontecimentos tal como foram para que a sociedade não só reconheça o horror, sua responsabilidade pela invisibilidade, também para que as vítimas compreendam o que viveram.

As audiências públicas da CVR - Comissão da Verdade e Reconciliação no Peru
“Un país que olvida su historia está condenado a repetirla”
A frase da epígrafe se encontra na página inicial do site da CVR e traz os conceitos de esquecimento e de história, centrais no livro de Jelin. O sentido da frase é preventivo: mostra o perigo do esquecimento, como esse esquecimento pode repetir uma história que também está esquecida ou desconhecida. A repetição como uma condenação. Porém, só a partir do informe final da CVR, entregue ao governo peruano no ano 2003, a população peruana pode ser consciente da magnitude do conflito armado que assolou o país entre os anos 1980 e 2000 (o período da investigação da CVR). Nesse sentido estamos falando de uma história desconhecida ou, ainda pior, que não foi elaborada e de um esquecimento próximo ao silêncio e ao apagamento. Assim, o desafio social e político para a sociedade peruana está em construir essa história - daí a necessidade imperiosa de historizar a memória - e de gerir de forma democrática os esquecimentos, silêncios e aprendizados da memória. Podemos dizer que é um chamado para o trabalho que um grupo de empreendedores da memória (segundo Jelin): aqueles que podem propor transformações a partir da memória e não unicamente repetições.
A CVR no Peru se junta aos movimentos do “Nunca Mais” e do “Para que não se repita”, e se une à rede latino-americana de movimentos sociais pelos direitos humanos e de luta contra a repressão nas condições das nossas frágeis democracias (em trânsito para a democracia). Tanto é que um dos comissionados da CVR, Carlos Iván Degregori, é, junto com Elizabeth Jelin, um dos diretores da coleção “Memórias da Repressão”, da qual “Os trabalhos da Memória” faz parte.
As investigações da CVR no Peru abriram um novo período, o da luta política pela memória, que procura uma nova narrativa da história nacional e a revisão da memória oficial para o processo diverso, conflitivo e reconciliador das memórias que contribuíram para esta nova história. Este é um processo complexo que significa uma revisão total da história nacional, a emergência de novas ferramentas metodológicas e a ação de diversas disciplinas do conhecimento para as re-elaborações e as re-significações da sociedade peruana, numa complexa visão espaço-temporal. Assim, é fundamental mencionar que o conflito armado interno peruano aconteceu ao longo de períodos de governos democráticos que empregaram a repressão e a violência tanto quanto os partidos políticos subversivos. Tanto Sendero Luminoso quanto o Estado peruano são responsáveis pelo genocídio acontecido no Peru. A CVR conclui também demonstrando a ineficácia, a inoperância, o descaso do Estado peruano na situação de emergência.
Apresentarei um panorama das dimensões do conflito armado interno no Peru: Este foi o episódio de violência mais prolongado e intenso (1980-2000) da história republicana do país e revelou as brechas e desencontros profundos e doloridos da sociedade peruana (o abandono e o desconhecimento da humanidade e dignidade de um contingente enorme de peruanos e peruanas, os indígenas andinos e amazônicos). A quantidade de vitimas se estima em 69.000 pessoas aproximadamente e uma grande porcentagem - mais da metade - das vitimas são indígenas e camponeses andinos e amazônicos. Isso demonstra a relação entre a situação de pobreza e exclusão e a probabilidade de ser vítima da violência, mostrando a grande desigualdade étnico-cultural que ainda prevalece no Peru e o profundo racismo que marca a sociedade peruana. Outra mostra disto é que a destruição se concentrou no território geográfico dos Andes e da Amazônia, com especial concentração na região sul andina e especificamente na área rural.
A dimensão étnica e cultural, assim como a dimensão do gênero, foi visível quando se instalaram as audiências públicas da CVR. O âmbito étnico e cultural é central para analisar o conflito interno peruano, justamente o âmbito que Jelin não trata no seu livro (na introdução explica que não o fará). Porém, sua aproximação metodológica às questões de gênero e violência, sua proposta de empreendedores da memória, sua preocupação com os profissionais da escuta e com a re-elaboração das testemunhas da violência no contexto do trauma são propostas teóricas que dialogam com o caso peruano, embora tenha as suas especificidades.
Retomo o momento em que Jelin fala das testemunhas dos sem voz e as controvérsias que estes textos levantam para a construção das memórias e da história. Para exemplificar, trago o momento concreto das audiências públicas da CVR, acontecidas em diversos lugares do Peru. No caso peruano, a violência se concentrou sobre aqueles que não só são os mais pobres e excluídos, mas também aqueles que não falavam a mesma língua dos seus carrascos, os indígenas. A língua, o discurso como tema central do relato da memória, um discurso em outra língua, uma língua desvalorizada e discriminada, assim como aquele que a fala. No momento da coleta dos testemunhos das vítimas, 75% eram quíchua falantes ou falavam uma língua nativa amazônica. O que acontece quando a língua do ouvinte não é mesma que a da vitima? Assim as testemunhas da CVR se constituem, não só em performances da memória, em relatos da mesma, e sim também num enorme chamado para a reconfiguração política, social e econômica do Peru. As audiências da CVR se converteram em espaços da fala, da fala legítima em línguas nativas, da elaboração do relato, da rememoração, do esquecimento, dos silêncios, das fraturas, da dor, da sanção, em suma, espaços para a restituição da dignidade, para a procura da verdade e da memória que neste caso - parafraseando a Yerushalmi - se identificam com a justiça. “La oportunidad de rendir testimonio frente al país es un acto de dignificación y sanación para las víctimas que aparecen en la audiencia publica y para aquellas personas que pueden identificarse con los casos presentados. La Comisión busca que las víctimas enriquezcan la investigación con su verdad personal, con su interpretación de los hechos y sus esperanzas de justicia, reparación y prevención. Asimismo, el país se solidariza y reconoce la dignidad de las víctimas, por tanto tiempo negada” (texto extraído do site: http://www.cverdad.org.pe).
Para os interessados, recomendo o vídeo que se aproxima ao tratamento do gênero e violência no conflito armado interno peruano. Mujeres y violencia:
http://www.youtube.com/watch?v=4CnbZkCwQ24&feature=related

Bibliografía Principal:
Jelin, Elizabeth. Los Trabajos de la memoria, Madrid, siglo XXI, 2002.
Ferraz, Joana D’Arc Fernández. “Os Desafios da Preservação da Memoria da Ditadura no Brasil”, in Museus e Patrimônio: vozes polifônicas (no prelo)

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